TOC

6 de abril de 2016

Pensamentos Indomáveis e repetições, repetições,repetições…

“Joana acorda todos os dias às 07:30. Pega cuidadosamente luvas descartáveis, os materiais de limpeza e limpa caprichosamente o box. Só depois disso entra no banho, o qual dura em média duas horas. Só acaba depois de ter conseguido lavar detalhadamente e repetidamente todo o seu corpo. Faz várias tentativas de desligar o chuveiro, seguidas de novos episódios de lavagem das mãos. Aproximando-se o horário da chegada dos filhos da escola ela veste novamente uma luva, pega um saco e fica na porta aguardando para que quando seus filhos chegarem, ele tenha que tirar sua roupa usada e colocar chinelos e roupa limpa além de ir direto para o banho, para só depois ir almoçar. Ela acredita rigorosamente que se não realizar esses rituais vai ser acometida por alguma doença terrível”.

O caso de Joana é um exemplo típico de Transtorno Obsessivo- Compulsivo, que é caracterizado por obsessões ou compulsões recorrentes que consomem tempo e causam grande prejuízo no cotidiano da pessoa que sofre do transtorno. As obsessões são pensamentos, imagens ou impulsos que ocorrem de maneira repetitiva e são percebidas pelo indivíduo como fora de controle. Por sua vez, as compulsões são atos que são executados de modo repetitivo, o qual a pessoa sente-se compelida a executar em resposta a uma obsessão ou de acordo com certas regras.

O quadro abaixo ilustra os exemplos mais comuns de obsessões e compulsões

Obsessões

Compulsões

Evitações

Preocupação excessiva com limpeza, contaminação;

Preocupações com simetria, exatidão, ordem, alinhamento;

Pensamentos, imagens, impulsos de ferir ou agredir alguém;

Colecionismo

Religião (pecado, culpa, sacrilégio, escrupulosidade)

Lavagem;

Verificações;

Repetições:

Contagens;

Tocar;

Olhar;

Bater;

Alinhar;

Estalar os dedos;

Compulsões mentais: rezar, repetir palavras, frases.

Não tocar em trincos de portas, corrimãos etc..,

Isolar compartimentos e impedir o acesso de familiares;

Não cumprimentar determinadas pessoas;

Não sentar em bancos coletivos (sala de espera, praças,)

É muito comum pessoas que sofrem deste transtorno serem acometidas por dúvidas insistentes como “Será que tranquei a porta” Ou “Será que fechei o bico do gás” e que estas sejam seguidas de pensamentos relacionados à conseqüências trágicas. Porém, é importante diferenciar o TOC de certos comportamentos apresentados pelas pessoas que possuem “manias de limpeza, organização excessiva”, pois comportamentos ritualísticos, ou mesmo dúvidas fazem parte da nossa vida diária, desde cantar músicas para dormir até a preparação da bolsa ou da roupa para o dia seguinte. Pessoas que prezam por organização certamente têm em sua personalidade traços obsessivos, sem que estes causem prejuízo ou sofrimento. Os indivíduos acometidos pelo TOC apresentam obsessões ou compulsões que são persistentes, irracionais e causam muita aflição, interferindo significativamente no funcionamento diário do indivíduo.

Além de perder muito tempo do seu dia com os rituais, as pessoas que sofrem de TOC apresentam preocupações excessivas, são mal compreendidas, passam por exposição social e moral e ainda torna-se difícil a execução de uma atividade produtiva. Muitos pacientes vivenciam diminuição na capacidade funcional, incluindo perda de emprego, separação conjugal e perda de relacionamentos.

Para imaginarmos o tamanho do prejuízo funcional causado pelo TOC, vamos lembrar do exemplo da Joana, que perde quase toda a sua manhã apenas no banho! E poderíamos também questionar como a família interpreta o TOC, pois acabam sendo envolvidos diretamente nos rituais.

O TOC não é uma doença rara, é um dos transtornos mentais mais comuns nos EUA. Pesquisas mostram que quase 3 milhões de norte – americanos sofrem de TOC em algum momento da vida, e o início dos sintomas pode ser em qualquer idade, inclusive na infância.

Percebe-se que estamos diante de um problema de saúde grave, com diversas implicações clínicas e sociais. Diante disso, qual seria o tratamento recomendado?

Pesquisas mostram que há eficácia nos tratamentos que associam a medicação com a psicoterapia e o engajamento da família, Os profissionais capacitados para auxiliar no tratamento do TOC são psicólogos e psiquiatras. Dentre as psicoterapias, destaca-se a Terapia de Exposição e Prevenção de Resposta (EPR) que é originada das Terapias Comportamentais e consiste em criar estratégias de enfrentamento e mudanças dos rituais. Esta técnica é inserida em um processo terapêutico que promova inicialmente acolhimento ao paciente, favorecendo a expressividade emocional, além de proporcionar informação a respeito do transtorno e do tratamento. Após o paciente compreender a importância dos enfrentamos, apresentar um vínculo opositivo e confiança, a EPR pode ser utilizada. Ela é baseada no fenômeno de habituação, em que a exposição gradativa, programada e orientada por um profissional capacitado, àquilo que gerava ansiedade,  é acompanhada por um aumento súbito de ansiedade e do impulso de realizar o ritual e seguido de uma diminuição gradual até o desaparecimento completo do sintoma. O tempo médio de tratamento pode variar de acordo com o grau de gravidade dos sintomas apresentados e envolve ativamente o paciente no processo, através de exercícios práticos extra consultório.

Uma leitura que pode auxiliar em um maior conhecimento do tema “O menino que não conseguia parar de se lavar: experiência e tratamento do distúrbio obsessivo-compulsivo” da editora Marques Saraiva, escrito pela Dra. Judith Rapoport.

 

Responsáveis pelo texto:

Manuela Christ Lemos
CRP 08/12510

Mariane Louise Bonato
CRP 08/10708

Psicólogas da Uniica

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