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Dependência Química

6 de abril de 2016

O que é a dependência química?

Independente de a sociedade considerar o uso de substâncias um problema moral ou legal, quando este uso cria dificuldades para o usuário ou deixa de ser algo inteiramente sob controle da vontade, torna-se preocupação para todos os profissionais de saúde.

Dois aspectos têm sido empregados para definir o problema. No primeiro, enfatizam-se as atividades de busca das drogas e os sinais e sintomas relacionados ao uso doentio, ao passo que no segundo se enfocam os efeitos físicos do uso repetitivo dessas substâncias. Utilizam-se termos como – uso nocivo, dependência, intoxicação, abstinência – para determinar as diversas situações clínicas resultantes do abuso de drogas tanto lícitas (ex.: álcool) quanto ilícitas (ex.: crack).

Cabe ressaltar que a doença se baseia no comprometimento ou sofrimento significativo do indivíduo, nos aspectos físicos e mentais relacionados ao uso de drogas, entre elas álcool, maconha, cocaína, crack, entre outras.

Quais as características desta doença?

A doença se caracteriza pela necessidade de usar quantidades cada vez maiores da droga em questão para obter o efeito desejado, considerando-se uma acentuada redução deste efeito com uso continuado da droga; fenômeno denominado de tolerância. Além disso, a necessidade de usar a mesma substância (ou uma estreitamente relacionada) para evitar sintomas desagradáveis de abstinência, como ansiedade, insônia, medo, alterações do humor, alucinações, paranóia entre outros.

As pessoas portadoras dessa doença perdem cada vez mais tempo de suas vidas em atividades que visem a obtenção da substância, comprometendo escola, trabalho, compromissos, na maioria das vezes sem perceber tal atitude e suas evidentes consequências.

Quais suas possíveis consequências?

Estas ocorrem tanto no plano físico quanto mental e podem ser divididas em dois grupos: imediatas e tardias. Como imediatas, os indivíduos apresentam situações relacionadas à intoxicação aguda ou abstinência com sintomas que vão desde um aumento da energia, disposição e alegria até sintomas como ouvir vozes, se sentir vigiado ou perseguido por alguma coisa ou alguém; aceleração do coração, sudorese, tonturas, visão embaçada, aumento da pressão arterial, dores de cabeça, vômitos, fezes líquidas, entre outros. Como tardias, os indivíduos podem apresentar alterações persistentes do humor, ansiedade, prejuízos da memória, prejuízo das relações familiares e sociais, dificuldade para manter a capacidade no trabalho, alterações de sono e apetite, distúrbios neurológicos, cardiovasculares, sexuais, até casos mais graves como a demência (ex.: Demência Alcoólica).

Existe e exige tratamento? Como é este?

Hoje muitos tratamentos que auxiliam os pacientes a iniciar e manter o processo de abstinência,  envolvem a psicofarmacologia, a terapia individual e em grupo, grupos de autoajuda. O problema exige sim tratamento e o objetivo a ser alcançado é, em primeiro lugar, parar de consumir a droga. Em segundo lugar e finalmente, manter-se em abstinência. Essa doença não tem cura, pois em qualquer oportunidade de recaída o indivíduo estará em alto risco de voltar a consumir a droga na mesma frequência e intensidade anteriores a abstinência.

Algo muito importante no processo terapêutico é a vontade do doente em se tratar e abandonar a dependência, sendo esse interesse um grande aliado para o sucesso terapêutico a curto e longo prazo.

É necessária a interação? Quando?

Considerando-se a descrição apresentada acima, e levando em conta principalmente as situações de maior gravidade, o internamento em muitos casos é uma grande ferramenta para promover os cuidados básicos necessários para o processo de abstinência, reabilitação e reinserção social. Não se trata de castigo ou de se livrar, mas sim um método tecnicamente reconhecido como eficaz, independente da fase em que a doença se encontra. Pode ser indicada tanto nos casos de leve e moderada intensidade quanto nos graves.

Que medicamentos são usados? Viciam?

Os medicamentos normalmente usados no tratamento da dependência química pertencem à classe dos psicofármacos, e dependendo do estágio da doença e dos fatores associados, como presença de doenças físicas ou outras doenças mentais, são prescritos em diferentes dosagens e associações. Na grande maioria das vezes durante a fase de abstinência são usados os benzodiazepínicos (conhecidos como “calmantes”). No momento seguinte podem ser associados outros medicamentos como antidepressivos, estabilizadores do humor ou antipsicóticos para o tratamento de sintomas e doenças associadas. Vale a lembrança que todo e qualquer medicamento só deve ser usado com a prescrição e supervisão de um profissional médico.

Dr. Rafael Bodanese
Psiquiatra

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