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Alcoolismo

6 de abril de 2016

A célebre frase de Benjamim Rush, em 1790, “Beber começa como um ato de liberdade, caminha para o hábito e, finalmente, afunda na necessidade”, faz refletir a seriedade e a preocupação com os problemas advindos do uso, abuso e dependência do álcool até os dias de hoje. O álcool (etanol) é considerado uma droga depressora do sistema nervoso central afetando o julgamento, o nível de consciência, o autocontrole e a coordenação motora.

Por ser o álcool a principal droga psicoativa utilizada no mundo, é de se esperar que o desenvolvimento do alcoolismo dependa da interação entre fatores biológico, psicológico e social, caracterizando uma doença de herança multifatorial (Merikangas, 1990; Crabbe et al, 1994; Ducci e Godman, 2008).

Muitos autores mostram vários fatores relacionados ao desenvolvimento do alcoolismo. Pereira et al (2004) enfatizou os fatores ligados à família: pais dependentes; permissividade dos pais em relação ao uso de álcool, tabaco e outras drogas; falta de disciplina dos pais; padrões de comunicação negativos, conflitos na família; estresse ou disfunção causados por trauma de morte; divórcio; prisão dos pais; baixa renda; ausência de suporte para lidar com problemas familiares; rejeição familiar; falta de acompanhamento de adultos em relação às atividades das crianças; falta de rituais familiares (como férias da família).

Seljamo et al (2006) avaliaram 1132 famílias finlandesas quanto ao uso de álcool dos pais, aspectos socioeconômicos das famílias e o uso de álcool dos jovens aos 15 anos de idade.  Observaram que aos 15 anos de idade, 83% das meninas entrevistadas e 79% dos meninos entrevistados relataram já ter consumido álcool. Os autores constataram que o uso pesado e precoce de álcool por parte, em especial, do pai foram os fatores mais associados com o uso de álcool problemático (uso abusivo ou uso tendo como finalidade a embriaguez) pelos adolescentes. Além disso, ressaltaram a importância de os familiares, em especial o pai, ficarem atento ao seu uso de álcool como forma de prevenir futuros problemas associado ao uso de álcool pelos filhos.

Gomide (2004) afirma que em famílias onde os pais acompanham de forma positiva as atividades das crianças e adolescentes não são encontrados usuários de álcool e outras drogas, indivíduos com comportamentos antissociais, baixo desempenho escolar, abandono da escola. Bolsani-Silva et al (2009) afirmam que problemas de comportamento estão direta e/ou indiretamente relacionados ao repertório comportamental dos pais e que a expressão de sentimentos de modo não habilidoso não contribui para o estabelecimento de vínculos afetivos entre os pais e os filhos.

É percebido no comportamento dos alcoolistas a diminuição do comportamento pró-social, rebaixamento da autoestima, diminuição do autoconceito e o sentimento de pouco acolhimento de suas necessidades pelas pessoas de sua convivência repetindo o comportamento recebido em sua infância. Porém, vale salientar a importância da resiliência como uma forma de “imunidade psicológica”. Um ser resiliente é aquele que, submetido às adversidades da vida, consegue enfrentar e superar problemas, minimizando situações de risco à saúde nos âmbitos biológico, psicológico e social.

Referências:

1)            Gomide, PIC. Pais presentes, pais ausentes: regras e limites. Ed. Vozes. Petrópolis, RJ, 2004

2)            Bolsani-Silva AT, Paiva MM, Barbosa CG. Problemas de comportamento de crianças/adolescentes e dificuldades de pais/cuidadores: um estudo de caracterização. Psicologia Clínica, v21, n1, p169-184, 2009.

3)            Crabbe JC, Belknap JK, Buck KJ. Genetic Animal Models of Alcohol and Drug Abuse. Science, v. 264, 1994, pp. 1715-1723.

4)            Merikangas KR. The Genetic epidemiology of alcoholism. Psychol Med; 20(1): 11-22, 1990 Feb.

5)            Ducci F e Goldman D. Genetic approaches to addiction: genes and alcohol. Addiction. 2008 September ; 103(9): 1414–1428.

6)            Pereira AP, Bordin S, Figlie NB. Conceitos Básicos em Prevenção ao Abuso de Álcool e Outras Drogas, pp 445-459. In: FOCCHI,G.R, LEITE,M.C, LARANJEIRA R, ANDRADE AG. Dependência Química- Novos Modelos de Tratamento. Roca. São Paulo, 2004.

7)            Seljamo S, Aromaa M, Koivusilta L, Rautava P, Sourander A, Helenius H e SillanpääM. Alcohol use in families: a 15-year prospective follow-up study
Addiction, 101, 984-992, 2006.

Responsável pelo texto:

Elke do Pilar Nemer Pinheiro
CRP 085102
Psicóloga da UNIICA.

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