Suicídio

Há alguns dias, a imprensa mundial noticiou os dados de uma incômoda estatística: as tropas militares dos Estados Unidos sofrem sistematicamente mais de uma baixa todos os dias. Produto de combates nas várias frentes onde tem forças estacionadas? Não, estas perdas são computadas em nome de um inimigo silencioso, uma real epidemia, cujo nome raramente é citado. Estes soldados, estejam ou não mobilizados em campos de batalhas são vitimas da auto-eliminação, se matam. Mas, este é um assunto que raramente é ventilado. E, sejamos realistas, ele não é monopólio das forças armadas americanas.

Quantos de nós não conhece ou ouve sobre alguém que com certa freqüência tem esta  incomum e inexplicável  atitude?  O filósofo francês, Albert Camus começa uma de suas obras com a frase “só existe um problema filosófico realmente sério: o suicídio”.  O foco de Camus era um tanto diferente, mas a Medicina e em especial a Psiquiatria, não pode senão dar a mesma importância à questão, mesmo que por outro motivo: como é para estas áreas do conhecimento humano empenhadas em preservar vidas, conviver com o fato de que pessoas resolvem acabar com suas existências? Medicina e Psiquiatria não têm explicação definitiva para este fato, mas hoje não têm dúvidas: a ideia, o planejamento e a decisão de por fim à própria existência é um ato claramente doentio, produto de alterações profundas do funcionamento  mental.  Ao contrário do que já se pensou, não é um ato de heroísmo, não é certamente algo invejável. É, isto sim, um ato de desespero, produto de um profundo sentimento de desamparo, de absoluta desesperança determinados por doenças bem conhecidas.  Uma delas, não a única, mas freqüentemente associada a atos de agressão contra si mesmo, é a depressão, um sentimento intenso de tristeza não motivada determina no seu portador uma arraigada ideia de que nada nem ninguém poderá ajudá-lo, sendo a morte a única saída. Mesmo quando convicto da situação, sabemos que o paciente (pois é sem dúvida portador de uma doença) fica feliz ao perceber que o psiquiatra o entende e não vê nele um “louco” (??!!) e sim um sofredor que pode ser ajudado. No passado, falar sobre o assunto com ele era visto como um incentivo – hoje somos capazes de perceber como isto alivia seu desespero, que em grande parte provém de sua percepção do quanto estas ideias são diferentes a ponto de, em seu mundo interior, imaginar que  que ninguém será  capaz de entende-lo em seu desespero.  Ser abordado por alguém que não parece se assustar e é capaz de abordar adequadamente a questão, representa um primeiro passo para o retorno a uma vida de  esperança.

Existem, no entanto, algumas questões que qualquer pessoa pode perceber no comportamento de pessoas que estão convivendo com uma situação que pode levar a ideias, planejamento ou mesmo uma tentativa de auto-eliminação, que poderá ter ou não sucesso (sic).

Em primeiro lugar, jamais desconsiderar um pensamento ou ameaça de suicìdio.  Podemos com tranquilidade dizer que em se tratando de suicídio uma ameaça é sempre séria.  As pesquisas são definitivas – uma pessoa que faz uma tentativa hoje fracassada, tentará outras vezes, mais bem planejadas e em muitos casos, fatais. Cuidado com as pseudo-explicações do “chamar a atenção”, pois mesmo quando esta realidade ocorre, ela por si só já representa um comportamento doentio de qualquer natureza.

Suspeite de mudanças estranhas de comportamento, principalmente aquelas que têm conotação de despedida, como decisões testamentárias, distribuição de objetos pessoais preferidos, deixar de lado praticas rotineiras sem explicação.

Se isto ocorre na presença de um quadro de depressão ou outra doença psiquiátrica, abuso de drogas, doença física crônica em especial se acompanhada de dores intensas, o risco é ainda maior. E, principalmente, se na família desta pessoa existe precedente de mortes sabidamente auto-inflingidas ou suspeitas de tal.

Alguns outros cuidados quando existe qualquer suspeita de possível tentativa contra a vida: afastar a pessoa de instrumentos que podem ser utilizados para este fim: armas de fogo, instrumentos perigosos como facas, assumir o controle de medicações que podem ser, quando usadas em excesso, causadoras de alterações incompatíveis com a vida, como sedação intensa com transtornos  cardíacos ou respiratórios.

Uma última consideração:  o suicídio ocorre com maior freqüência em certos grupos etários. Os estudos sobre o suicídio parecem indicar que estes são mais comuns entre adolescentes e entre pessoas idosas. Portanto, tudo o que foi dito acima é ainda mais verdadeiro quando se trata de pessoas pertencentes aos dois grupos citados.

E finalmente: apesar das tentativas serem mais comuns em mulheres, elas são mais certeiras entre os homens.

Existem muitas outras variáveis que apontam para o risco de suicídio, como viver só, perder emprego, ser divorciado, pertencer a determinadas profissões, etc., mas cremos ter abordado as principais.

Uma vez tendo percebido algumas destas situações, o que temos é uma situação de emergência que deve necessariamente levar a busca de ajuda médica.

Dr. Élio Luiz Mauer
Médico Psiquiatra e Gerente Médico da UNIICA

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