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Vício em videogames será considerado uma doença mental em 2018

17 de janeiro de 2018

A Organização Mundial de Saúde (OMS) deverá reconhecer pela primeira vez o vício em videogames como uma doença mental. A oficialização deve ocorrer ainda em 2018, quando será divulgada a nova versão da Classificação Internacional de Doenças (CID). Contudo pelo DSM V (Código de Doenças Americano) este alerta já foi incluído no lançamento do manual atualizado há 5 anos.

A decisão da OMS é reflexo de casos registrados por médicos ao redor do mundo, que perceberam os impactos psicológicos e sociais causados pelo uso excessivo de jogos eletrônicos, em especial por crianças e adolescentes. O médico especialista em psiquiatria e diretor técnico da Clínica Uniica, Dr. João Luiz da Fonseca Martins, explica que a decisão da OMS se refere ao uso inadequado do videogame. “Não se trata de reprimir o uso do videogame, que se usado adequadamente não traz nenhum problema, mas sim alertar a população sobre os riscos do uso exagerado do jogo para a saúde mental”, destaca. O médico ainda completa que o anúncio deve contribuir para que os dependentes de jogos, ou até mesmo seus familiares, tenham conhecimento do problema e possam procurar ajuda profissional.

Sintomas do vício em videogame

De acordo com o psiquiatra, para identificar o vício em videogames alguns critérios precisam ser considerados. “Existem alguns sinais de alerta que devem ser observados, como, por exemplo, quando o indivíduo prioriza os videogames ao ponto em que jogar se torna mais importante do que outros interesses; a inabilidade para controlar quantas horas ou com que frequência joga e também o fato de ignorar os aspectos negativos decorrentes da dependência do jogo”, afirma.

Em geral, o vício afeta mais crianças e jovens, pois nesse período se tem mais tempo livre para jogar, mas também pode ser observado em adultos. “Quando priorizado frente a outros estímulos passa a ser prejudicial. O indivíduo abdica das horas de sono para jogar e, por sua vez, tem o desempenho escolar ou acadêmico prejudicado, tem um relacionamento interpessoal ruim e reage com irritabilidade quando são colocadas restrições em relação aos jogos. Sinais como esses são características do problema”, alerta.

A psicóloga da Clínica Uniica, Elke Nemer, destaca também que pessoas mais propensas ao vício são aquelas que apresentam algum outro tipo de fragilidade emocional, seja pessoal ou familiar. “A pessoa tende a canalizar no jogo alguma frustração, a esperança de ganhar”, relata.

Riscos

Segundo o médico, estudos já comprovaram que mais de duas horas intermitentes no videogame podem ser prejudiciais à saúde do indivíduo. “Os próprios manuais dos videogames informam que o uso excessivo do produto pode trazer danos à saúde do usuário, mas normalmente essa orientação passa despercebida. Um dos principais é o risco de crise convulsiva, que pode ocorrer devido ao número excessivo de horas de jogo”, explica o médico. As convulsões são consequência do estímulo visual que forma padrões no tempo ou espaço, como luzes piscantes e fundos que se movimentam regularmente.

Outro dano futuro recorrente da dependência em jogos eletrônicos é no relacionamento interpessoal, que pode resultar também em prejuízos na vida profissional e pessoal do indivíduo. O médico e a psicóloga ressaltam que muitas vezes são os próprios pais que acabam incentivando essa prática sem imaginar os riscos. “Eles preferem que o filho esteja em casa jogando ou navegando na internet do que em outras atividades externas, pois consideram mais seguro. No entanto, esse isolamento social pode prejudicar a criança futuramente. Essa pessoa terá dificuldade para conversar, para fazer uma entrevista de emprego, para ter um relacionamento amoroso ou até mesmo fazer amizades”, alerta o psiquiatra.

Ainda segundo o especialista, o vício em videogames tem traços muito parecidos com o de outras dependências. “O mecanismo de recompensa é o mesmo, o indivíduo que usa a droga tem sensações de prazer no cérebro usando do mesmo mecanismo, regulado principalmente pela dopamina, e busca através do jogo esse modo de recompensa que lhe causa prazer”, salienta. Além disso, assim como nos outros vícios, a falta do jogo também causa abstinência. “Por isso a agressividade, a irritabilidade verbal, que ocorrem por conta da necessidade de jogar para se satisfazer”, completa.

Tratamento

É importante deixar claro que jogar videogame não é um malefício, pelo contrário, a prática tem muitos aspectos positivos – atualmente é até mesmo ferramenta de trabalho para algumas pessoas – no entanto, o importante é a dosagem dessa atividade. Quando identificado um possível vício, o paciente passará primeiro pela avaliação profissional.

Para o médico, um dos primeiros passos no tratamento é a restrição do número de horas de acesso a televisão, jogos, internet, para que, ao abdicar dessas atividades, o indivíduo possa ter mais horas para se relacionar com outras pessoas. “Dosar o que faz parte do planejamento de realidade de interesse dessa criança, adolescente ou desse jovem adulto e o que está extrapolando é o primeiro passo. As próximas etapas serão definidas pelos profissionais conforme a necessidade do paciente”, comenta.

A psicóloga, Elke Nemer, completa que a psicoeducação também é parte importante do tratamento. “Conversar com o paciente sobre o seu vício, explicar o que causa e como tratá-lo é essencial para um resultado positivo” afirma. Além disso, a participação da família no tratamento também é fundamental.

É essencial ressaltar que o diagnóstico e o tratamento são individualizados. Em alguns casos será indicada a psicoterapia e em outros podem ser prescritos medicamentos para possíveis comorbidades associadas e sintomas adjacentes, como ansiedade, por exemplo. Vale ressaltar que não há medicação especifica para a dependência.

Com o tratamento adequado, é possível um viciado em jogos eletrônicos retomar sua vida social e conseguir utilizar o jogo exclusivamente como fonte de diversão. Por isso a importância de reconhecer o problema e buscar ajuda profissional o quanto antes.

Dr. João Luiz da Fonseca Martins – Médico psiquiatra e responsável técnico pela Uniica.
Elke Nemer – Psicóloga clínica da Uniica.

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