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Precisamos falar sobre o suicídio

20 de setembro de 2016

Neste mês buscamos, através da Campanha intitulada Setembro Amarelo, informar a população a buscar auxílio frente a grave ocorrência atual do aumento do número de suicídios no mundo.

Estatísticas atuais da Organização Mundial de Saúde (OMS) revelam que o suicídio mata mais que o HIV. Ocorre no mundo uma morte por suicídio a cada 40 segundos e o Brasil é o oitavo país no mundo com maior índice de ocorrência.

Atualmente a mídia demonstra muito receio na divulgação de dados referentes a essas ocorrências por acreditarem que isto incentivaria a população tendenciosa para tal conduta a colocar o ato em prática. Este fato traz desorientação; aumenta a prevalência e faz com que grande parte da população não tenha conhecimento mínimo necessário sobre o assunto para poder conscientizar seu familiar e/ou amigo a buscar ajuda e tratamento.

Caracterizamos o suicídio quando há morte provocada com evidências explícitas, ou não, de que o indivíduo tinha intenção de morrer. A prevalência do suicídio no Brasil é de 2,7%. Homens suicidam-se até 4 vezes mais que as mulheres. Elas têm ideação e tentativa de suicídio em números muito maiores que os homens, porém, a eficácia do ato acaba sendo muito menor.

Quanto à metodologia, o enforcamento vem como primeira escolha seguido do uso de arma de fogo e envenenamento. O primeiro e o segundo são mais utilizados por homens enquanto o terceiro é o método preferencial das mulheres.

Os principais sintomas de alerta para risco de suicídio são agressividade a si mesmo ou a terceiros; impulsividade; desesperança; ansiedade e agitação psicomotora. Histórico de tentativas de suicídio previamente presente tanto do paciente quanto de familiares próximos devem sempre ser pesquisadas pois aumentam o risco em 38 vezes de uma nova ocorrência. Histórico de abuso físico e/ou sexual na infância aumenta em 10 vezes o risco de suicídio frente a população em geral. Comportamentos de risco como dirigir embriagado e prática sexual não-segura são outros fatores a serem considerados.

Os principais transtornos psiquiátricos associados ao risco de suicídio são o Transtorno Depressivo Maior; Transtorno Afetivo Bipolar em especial na fase depressiva ou mista; Esquizofrenia; Transtorno de Ansiedade quando da presença de comorbidade com transtorno de humor; Transtorno por uso de substâncias quando associados a estressores sociais e Transtornos de personalidade em especial o tipo Borderline/Emocionalmente instável e o Anti-social.

Situações do cotidiano ruins costumam se relacionar ao aumento do risco de suicídio. Dentre elas estão as separações conjugais, perdas afetivas, desemprego, dificuldade econômica e relação familiar conturbada.

Quando relacionadas às doenças orgânicas, o HIV, Epilepsia, Lesões cerebrais e medulares e Câncer são também correlacionadas ao comportamento suicida. Estas doenças são consideradas em alguns países como justificativas positivas para liberação da eutanásia (quando o indivíduo deseja colocar fim na própria vida por ter uma doença incurável e em fase terminal). Ressalvo que isso é proibido no Brasil.

Como lidar com essa situação? Existem diversas modalidades de tratamento. A caracterização da ideação suicida, do planejamento, do risco de concretização do ato são fundamentais para determinação do melhor encaminhamento. O paciente poderá ser vigiado 24 horas por dia e tratado em domicilio, poderá realizar acompanhamento e tratamento em Centro de Atenção Psicossocial CAPS ou Hospital/Dia ou através do Internamento integral hospitalar. Caberá ao profissional qualificado estabelecer a melhor modalidade avaliando cada caso de forma individual.

Quanto ao tratamento medicamentoso, a principal medicação que reduz as taxas de suicídio e de tentativas é o Lítio. Os antidepressivos são importantes mas não exercem efeito protetor e podem aumentar o risco de suicídio no início do tratamento. A eletroconvulsoterapia reduz com grande eficácia o risco de suicídio nos casos agudos e não pode ser menosprezada.

A conscientização de todos facilitará a busca por suporte e tratamento. 90% das ocorrências que levam o indivíduo a cometer suicídio podem ser identificadas, tratadas e prevenidas. Cabe a cada um de nós olhar ao próximo com maior atenção e buscar auxílio nos momentos de dificuldades/desesperança. Essas doenças tem tratamento e podem, quando avaliadas e tratadas adequadamente, não terminar em tragédia.

Dr João Luiz da Fonseca Martins é psiquiatra e responsável técnico da clínica psiquiátrica UNIICA – Unidade Intermediária de Crise e Apoio à Vida

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