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Pessoas que amam demais

6 de abril de 2016

“Amor é fogo que arde sem se ver; é ferida que dói e não se sente”, dizia o poeta português Luís Vaz de Camões. Em épocas de grande apelo comercial em comemoração ao dia dos namorados, celebrado em 12 de junho, as declarações de amor eterno e incondicional tomam a cena principal da vida de muitos. No entanto, amar demais alguém pode transformar-se não apenas na incansável busca pela felicidade, mas sim em uma patologia.

Você sabia que amar demais é uma doença que atinge mulheres e homens? Segundo a Psicóloga da Clínica UNIICA, Carolina Batista, amar demais é um estado em que o indivíduo se sente totalmente dependente da outra pessoa, depende do amor do outro para se sentir amado, do olhar do outro para se sentir protegido, do reconhecimento do outro para se sentir útil. “É uma dependência emocional, onde a pessoa que ama demais passa a se sacrificar e dedicar ao outro, perdendo a sua própria identidade”, explica.

A doença se caracteriza pela falta de amor próprio e a baixa autoestima: “A pessoa é insegura, sem autonomia para tomar suas decisões, pois vê no outro a segurança, a validação, aprovação e reconhecimento. Embora em alguns casos aparente estar no controle, internamente mantém sentimentos negativos, como o medo de rejeição, abandono e solidão”, detalha Carolina. São relações em total desequilíbrio e desarmonia, onde uma das partes não mede esforços para manter a relação, fazendo tudo pelo afeto do outro. “Essas pessoas não enxergam os reais problemas em seus relacionamentos, muito menos os defeitos do outro, pelo contrário, se culpam por qualquer situação conflitante nessa relação”, pontua.

Um relacionamento que enfrenta um desafio desse acaba sendo sinônimo de sofrimento para ambas as partes, que perdem a liberdade. “A pessoa que ama demais começa a deixar o seus interesses e projetos pessoais de lado, para viver pelo o outro. Acaba se isolando, pois acredita que pessoas de fora são ameaças em seus relacionamentos, deixando seu convívio social restrito entre ela e o parceiro (a)”, explica a psicóloga.

Como toda doença, pessoas de fora do contexto podem visualizar melhor a situação já que quem está neste movimento, na maioria das vezes, não tem consciência da real situação. “Não percebe o quanto está disfuncional o seu relacionamento, o quanto se anulou para estar com o outro, o quanto investe emocionalmente. O familiar e/ou conhecido pode trazer dados de realidade, conduzir essa pessoa para um tratamento para resgatar o seu amor próprio”, conclui a Psicóloga.

Iniciar um tratamento não significa terminar o relacionamento

A mudança de comportamento só começa quando a pessoa vê que a forma como ama e se relaciona é um problema, reconhecendo as consequências negativas em sua vida e o extremo sofrimento causado pela dependência emotiva do outro. É importante saber que existe tratamento especializado e eficaz, por meio do atendimento psiquiátrico em que o paciente passa por uma avaliação e propõe-se o melhor tratamento.

“Se o parceiro perceber o quanto o outro está doente e precisa de ajuda, é possível manter o relacionamento. Mas esse relacionamento passará por mudanças, o casal deve construir uma nova forma de se relacionar”, explica a psicóloga. Portanto, cabe ao companheiro também refletir sobre o seu comportamento e ver o que é preciso mudar para não alimentar o comportamento de dependência do parceiro. No entanto, Carolina pontua que nos casos em que o relacionamento só é mantido por causa das ameaças, pela obrigação de estar com o outro, onde o amor e respeito não fazem mais parte desta relação, a melhor decisão é romper o relacionamento.

O tratamento psiquiátrico é realizado por um médico psiquiatra que deve avaliar o paciente, diagnosticar e prescrever o tratamento medicamentoso. “Em conjunto ao tratamento psiquiátrico é necessário buscar acompanhamento psicológico, onde se trabalha em psicoterapia aspectos da vida do indivíduo que o/a levaram a ter esse padrão de comportamento e funcionamento”, explica a psicóloga.

Patologia que atinge homens e mulheres

Segundo a Psicóloga Carolina Batista a doença de pessoas que amam demais é uma patologia que atinge homens e mulheres, ambos apresentam comportamentos parecidos, de submissão, humilhação e carência excessiva. Em situações de brigas se veem como culpados e os parceiros são sempre vítimas, vivem em função da pessoa amada, desejada, apresentando desconfiança e ciúmes exagerados.

As mulheres exteriorizam a doença tornando-se obcecadas por um homem, permitindo que o sentimento controle as emoções e até o próprio comportamento, mesmo percebendo que isso influencia negativamente a sua saúde e bem-estar. Acabam desenvolvendo atitudes de perseguições constantes, superproteção, vigilância e até agressividade.

Os homens, em alguns casos, estão em grande sofrimento por amar demais, mas não exteriorizam seus sentimentos, se escondendo através de comportamentos manipuladores, ameaçadores e se envolvendo com várias pessoas na busca de preenchimento.
Atualmente existem grupos de apoio para homens e mulheres: o MADA (Mulheres que Amam Demais Anônimas) e o HADA (Homens que Amam Demais Anônimos).

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