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Introdução à Loucura

6 de abril de 2016

Um profissional cuja atividade exige que o mesmo se exponha a riscos capazes de por sua vida em perigo; uma pessoa que teima em dizer o que pensa mesmo que isto lhe custe forte reprovação do meio em que vive; outra que vê coisas que ninguém mais enxerga, e ainda outra que elabora pensamentos estranhos e muitas vezes completamente fora da lógica utilizada pela maioria todos estes podem ter em comum a “opinião” de que seriam “loucos”. Ao contrário do que muitos podem imaginar, em apenas um destes casos poderiam assim ser designados.  E, no entanto, é muito comum vermos ser utilizada esta estranha e indefinível palavra – loucura.  Se formos à história ver quem mereceu tal nome, encontraremos personagens bastante interessantes. É muito provável que esta palavra tenha sido utilizada para designar Copérnico quando colocou em questão a ideia de que a Terra era o centro do universo – e a mesma palavra provavelmente seria utilizada para alguém que hoje defendesse a mesma tese. É, também muito possível, que esta fosse a ideia dos espectadores que em Paris observavam as tentativas de voar realizadas pelo nosso Santos Dumont – quem, ao entrar em um avião hoje falaria assim do brasileiro?  Freqüentemente estes “loucos” passam a “visionários”. Mesmo assim, muitos continuam a ser assim denominados. Alguns, mesmo depois de muito tempo continuam a ter comportamentos e ideias que se mostram fora do contexto, que têm manifestações anormais ou como a Medicina os classifica, manifestações patológicas – produto de processos doentios do funcionamento mental.

Mas afinal, o que é esta tal Loucura?

A primeira coisa a ser dita sobre a loucura é que este não é um termo científico, e por isto mesmo, como logo ficará claro, não tem apenas um significado, dependendo este (ou estes) muito de uma série de variáveis.

Estes significados dependem bastante de interesses pessoais. Quando discordamos de uma ideia expressa por outra pessoa, principalmente se esta ideia nos prejudica, não temos dúvida em exclamar: “Você está louco?” Esta pergunta tem pelo menos duas evidentes intenções: levanta a hipótese de que o proponente não está no controle de suas ideias, e em segundo lugar tem a intenção de agredi-lo no aspecto mais pessoal naquilo que mais temos como certo: nossa saúde mental. Em síntese esta frase-pergunta, nos garante estar do lado é e , golpe baixo, coloca em dúvida o lado a que pertence nosso opositor.

Seja como for, nesta situação o conceito de loucura é estabelecido de forma absolutamente subjetiva: a resposta a esta colocação pode ser simples: “Eu não mas, acho que você sim”. Enfim, este é um primeiro uso do conceito de loucura – uma forma de diminuir o outro apontando nele um dos aspectos de vida mais temidos: a perda da capacidade de discernimento, o mais valorizado dos elementos que compõem uma suposta “normalidade”.

E aí temos mais um possível significado para nossa palavra-chave: ele significa o oposto do conceito de normalidade. Mas, como esta por sua vez é de tão difícil conceituação, aqui também vamos estar altamente fundamentados numa pouco salutar subjetividade.

Enfim quem é louco é o outro e não eu.

Supomos que a estas alturas esteja claro o porquê a Psiquiatria, área do conhecimento médico e humano apontado como historicamente encarregado do estudo desta pretensa “loucura”, tem ao contrário de outras áreas do conhecimento e da cultura, principalmente nas últimas décadas ou mesmo no último século, evitado o uso da palavra que nos vem ocupando, mesmo se considerando que de uma ou outra forma  ela estivesse presente no vocabulário médico. Em vários idiomas foram utilizados termos que se ligavam ao conceito de “loucura”, como a palavra “folie”, que tinha exatamente esta acepção, mas isto numa época em que a própria explicação científica era incipiente.

A evolução da ciência nos levou a entender, como a sabedoria popular já nos fazia ver, que a diferença entre o normal e o patológico (loucura) é apenas uma questão quantitativa o que a Psiquiatria tem em comum com outros campos da Medicina. Assim como muitas doenças físicas não passam de acentuações (exageros) ou diminuições (faltas) de processos normais, as doenças mentais não são mais do que variações para mais ou para menos de processos emocionais (mentais) em si normais.

E este é um dos aspectos mais temidos: se vejo no “louco” coisas que reconheço em mim mesmo, como faço para me diferenciar dele?  A maneira mais simples é também a mais elementar, como sabemos: a negação. Sob hipótese alguma existe em mim algo que se assemelha ao “louco”. Encampo a visão medieval: ele é tomado pelo demônio e eu sou a encarnação do divino. Neste diálogo, não há lugar para a razão – é pura subjetividade. Nada há em mim que seja comum ao louco. Não se torna difícil entender porque a doença mental é ao mesmo tempo tão razoável (porque o cérebro seria o único órgão a não poder adoecer?) e tão negada (como ontem a lepra nos textos bíblicos).

Na conceituação psiquiátrica que mais se aproxima da ideia de loucura como comportamento diferenciado do normal, as chamadas psicoses, não são mais do acentuações de estados mentais próximos do normal. Quadros clínicos tão conhecidos como a depressão ou mesmo as ansiedades, podem assumir caráter psicótico e no entanto, não são menos tratáveis do que suas formas menos graves. No caso da depressão, porque uma tristeza patológica seria menos compreensível e menos humanamente abordável só por apresentar manifestações menos comuns e mais acentuadas?

Concordemos que talvez o nome deste “porque” seja preconceito.

Dr. Elio Luiz Mauer
Médico Psiquiatra e Gerente Médico da UNIICA

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