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Compras compulsivas

6 de abril de 2016

Shopping Terapia”- Até que ponto isto funciona?

Quem nunca ouviu algo parecido com: “- Vamos fazer uma shopping terapia?”, ou “- Preciso comprar uma coisinha para relaxar!”. Este discurso nos soa tão comum, porém se estiver em uma proporção exagerada, pode sinalizar que algo não vai bem.  A compulsão é uma ação caracterizada por atos compulsivos repetidos de forma sistemática e sem controle, com a qual o indivíduo experimenta tensão antes do ato e alívio depois. É um padrão de comportamento cada vez mais presente na atualidade, e que se expressa em diferentes áreas da vida. Ela pode estar relacionada ao sexo, a alimentação, a rituais como lavar as mãos, cortar e puxar fios de cabelo, entre outros.

Comprar tornou-se o comportamento alvo da sociedade moderna. Basta andar poucos quarteirões em uma das grandes cidades brasileiras e sem nenhum esforço ou busca, você será bombardeado por outdoors, panfletos, e anúncios sonoros tentando levar você ao ato de consumo. Em casa é só ligar a televisão, abrir uma revista e muitos apelos estão presentes, todos esses artifícios que instigam o ato da compra.   Temos ainda o acesso fácil ao crédito como facilitador desse encadeamento representado por seis etapas: Instigação – Tensão-Impulso – Compra- Alívio – Arrependimento-Culpa- Prejuízos. O ato de comprar hoje é exaltado, planejado e mantido pela nossa cultura. Porém, existem momentos em que esse comportamento entra em conflito com a realidade, podendo tornar-se um vício, como o jogo, álcool, e outras drogas.  A pessoa passa a comprar sem avaliar a real necessidade, o valor e o objetivo da compra. Muitas vezes, os compradores compulsivos referem-se à compra como uma busca por um sentimento de alívio, um prazer, mas que logo depois se transformam em culpa. Esse transtorno acomete diferentes culturas e classes sociais sendo relativamente comum nos dias atuais.

O comprar compulsivo pode estar presente em diferentes quadros psiquiátricos, como nos transtornos de humor, transtornos de ansiedade, transtornos de uso de substâncias e outros transtornos do controle dos impulsos.  Como este comportamento hoje é usual, torna-se importante uma autoavaliação do nosso perfil de consumo. Algumas perguntas podem auxiliar nesse processo.

Padrão de comportamento de consumo:
Você se preocupa com frequência em comprar?Ao passar em frente de uma loja, você sente uma vontade irresistível de comprar?

Você já comprou algo além do que poderia pagar?

Você costuma comprar com frequência objetos que não utiliza depois?

Você ocupa muito tempo da sua vida pensando em comprar ou comprando?

Você percebe que comprar é uma das únicas fontes de prazer que você encontra?

Após a realização de uma compra, você se sente culpado ou em sofrimento?

Caso você tenha respondido sim a alguma dessas questões é importante começar a se questionar sobre o seu padrão de consumo. Perguntas que podem ajudar a exercer um autocontrole no momento do impulso são: “Estou comprando por simples prazer ou necessidade real?”.

Quando o comprar se torna um quadro patológico, causando prejuízos em sua vida como endividamento, e sofrimento em relação à questão, é hora de buscar ajuda! O passo inicial é procurar um profissional da saúde mental, psicólogo ou psiquiatra para uma avaliação do quadro. Estes profissionais poderão indicar o tratamento mais adequado, que pode incluir medicação e/ou psicoterapia. No processo de terapia a pessoa tem a possibilidade de entrar em contato com as questões geradoras e mantenedoras ansiedade, e desenvolver estratégias mais saudáveis para resolução e enfrentamento delas.  Com a ajuda do terapeuta são avaliadas as funções do comportamento de comprar e quais são os ganhos que mantém esse problema. Ao mesmo tempo, são desenvolvidas habilidades pró-sociais e de resolução de conflitos. O trabalho tem como objetivo principal a mudança no padrão de comportamento reduzindo assim a ansiedade. O autocontrole e as questões relacionadas ao autoconceito, e auto-eficácia, também são fortalecidas nesse processo.

Como sair do ciclo-vicioso?  Um momento de autoavaliação pode ser o início para investir em fontes de prazer mais duradoura e não em alívios momentâneos como uma compra. Alternativas como a busca de prazer em atividades simples do cotidiano, buscando fortalecer relacionamentos, valorizando o ser em detrimento do ter, podem ser úteis nesse processo de mudança. A busca pela sensação de prazer ou realização que podemos chamar de felicidade é um processo construído com pequenos passos, uma associação de componentes, os quais não podem ser adquiridos monetariamente. A “shopping terapia” funciona momentaneamente, mas a longo prazo pode trazer prejuízos ainda maiores que a tensão vivenciada anteriormente às compras.

Responsáveis pelo texto:

Mariane Louise Bonato
CRP 0810708

Manuela Christ Lemos
CRP 0812510

Psicólogas da UNIICA

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